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Notes on the PhD Degree

Sobre o Grau de Doutor

(livremente traduzido para português do original em inglês por Douglas E. Comer, com a permissão do autor)

Semana passada, durante o intervalo entre os seminários na universidade, vários alunos começaram a discutir com os professores sobre o nosso programa de doutorado. Naquele momento ficou claro que a maioria dos alunos não entendia os objetivos do programa; eles se espantaram com algumas das perguntas feitas pelos professores e muitos não acompanharam as respostas.

O texto que se segue serve como base para se compreender o propósito de um programa de doutorado. Sua leitura também pode auxiliar o aluno a decidir se deseja ou não se engajar em tal programa e obter o título de PhD.

Conceitos Básicos

O grau de Doutor em Filosofia, geralmente abreviado como "PhD", é o grau acadêmico de mais alto nível existente. Para se tornar um PhD é preciso bastante estudo e um tremendo esforço intelectual, por isso menos de um por cento da população mundial atinge esse grau. E quem consegue é reverenciado com muito respeito pela sociedade, ao ser chamado de "doutor".

Quem quiser se tornar um doutor tem antes duas grandes obrigações: primeiro, deve dominar uma certa área de conhecimento por completo; e depois, deve ampliar e estender o conhecimento existente naquele campo.

Dominando o Conhecimento

A natureza de um trabalho de doutorado — isto é, o aspecto que o distingue dos demais trabalhos acadêmicos — pode ser sintetizada em uma única palavra: pesquisa. Para se gerar conhecimento, deve-se explorar, investigar, ponderar. A comunidade científica usa o termo "pesquisa" para resumir essa ideia.

No campo científico, pesquisar geralmente envolve experimentação, mas uma pesquisa é bem mais que meros experimentos — é também interpretação e compreensão. Para cientistas da computação, pesquisar significa buscar entender os princípios que fundamentam a computação e a comunicação digitais. Um pesquisador deve descobrir novas técnicas que auxiliam na construção e no uso de mecanismos computacionais. Ele também procura por novas abstrações, novas abordagens, novos princípios, e novos mecanismos.

Para conseguir o grau de doutor, o doutorando deve apresentar os resultados da sua pesquisa a uma banca examinadora em um documento longo e formal: a dissertação (popularmente conhecida como "tese"). O aluno deve então submeter sua dissertação à banca e defender oralmente seu trabalho.

Relação com a Indústria

Em alguns casos, os resultados de uma pesquisa científica podem ser usados para desenvolver novos produtos ou mesmo melhorar aqueles já existentes. Apesar disso, cientistas não usam o sucesso comercial nem as possibilidades potenciais de lucro como medida do sucesso de um trabalho; cientistas pesquisam no intuito de ampliar o horizonte de compreensão humano e o conhecimento existente já compilado. Geralmente, pesquisas científicas trazem benefícios comerciais a mais longo do que curto prazo.

Atividades de Pesquisa

A pesquisa em Ciência da Computação pode envolver diversas atividades, tais como projetar e desenvolver novos sistemas computacionais; provar teoremas matemáticos; escrever programas de computador; mensurar o desempenho de sistemas computacionais; usar de ferramentas analíticas para avaliação de projetos; ou mesmo estudar as falhas que programadores costumam cometer ao construir grandes sistemas de software. Os pesquisadores escolhem suas atividades de acordo com as questões que surgem ao longo do trabalho investigativo, e como novas questões surgem a todo tempo, as tarefas de pesquisa variam de projeto para projeto e também mudam ao longo do tempo em um mesmo projeto. Um pesquisador deve estar sempre preparado para aplicar diferentes abordagens e manusear inúmeras ferramentas.

Algumas Perguntas a Se Fazer

Muitos de vocês ainda estão se decidindo se investem ou não em um doutorado. Eis algumas questões que vocês devam se perguntar:

  1. Você deseja seguir carreira na área de pesquisa? Antes de se matricular em um programa de doutorado, pondere calmamente sobre seus objetivos a longo prazo. Conseguir um título de doutor é exercitar a atividade de pesquisa, portanto se pergunte se trabalhar nessa área é o que você almeja. Caso seja, um PhD é o caminho para seu futuro profissional (apesar de algumas poucas pessoas terem conseguido ingressar na carreira acadêmica sem um doutorado, mas essas são exceções, não a regra). No entanto, caso a carreira que você almeje não esteja relacionada à pesquisa, um PhD não é bem o que você procura.

  2. Você procura uma vaga de trabalho na academia? Um doutorado é na prática um "cartão de sócio" da academia. Apesar de ser possível conseguir uma vaga na academia sem um doutorado, a probabilidade é baixíssima. As maiores universidades (e a maioria das faculdades) exigem que todos os professores tenham título de doutor e se envolvam em atividades de pesquisa. Mas por quê? Para garantir que os professores atinjam um certo nível de conhecimento suficiente para lecionar disciplinas mais avançadas, e para forçá-los a se manterem atualizados nos seus campos de trabalho. O protocolo social do Departamento de Estado dos EUA, por exemplo, classifica o título de "professor" em um nível mais alto que o título de "doutor", em reconhecimento ao fato de que a maioria dos professores detém um PhD, mas nem todos que têm tal título são professores.

  3. Você satisfaz os pré-requisitos? Não é uma tarefa fácil para um indivíduo avaliar suas próprias habilidades. As perguntas e diretrizes que se seguem podem lhe auxiliar nessa tarefa.
    • Inteligência: Durante seu curso de graduação e pós-graduação, quão próximas eram as suas notas das melhores da sala? Como você se saiu no vestibular e no processo de seleção para o mestrado?
    • Tempo: Você está preparado para encarar um projeto maior do que qualquer outro em que você já tenha trabalhado? Esse será um investimento de vários e vários anos de trabalho duro. Você está disposto a encurtar o tempo dedicado ou até a renunciar às demais atividades?
    • Criatividade: Descobertas científicas geralmente acontecem ao se observar fatos conhecidos por uma nova perspectiva. Você se diverte resolvendo problemas? Você gosta de passatempos e quebra-cabeças? Você gostava de estudar matemática na época do colégio e da universidade, ou achava complicado demais?
    • Extrema curiosidade: Você sente necessidade de entender o mundo à sua volta e como as coisas funcionam? Ser um curioso nato torna a atividade de pesquisa bem mais fácil. Você costuma entender somente um mínimo básico, ou explora as diversas possibilidades?
    • Adaptabilidade: Poucos alunos estão realmente preparados para um programa de doutorado. Para a maioria, essa é uma atividade bem diferente daquela de frequentar um curso e assistir a aulas. Muitos hesitam ao se verem subitamente em um mundo em que ninguém sabe as respostas. Você consegue se adaptar a novos modos de pensar e agir? Você vai em busca de respostas mesmo quando ninguém sabe bem quais são as perguntas?
    • Automotivação: Cursos de graduação acostumam os alunos a receberem notas para cada disciplina cursada, semestre após semestre. Em um programa de doutorado, o trabalho não está claramente dividido em disciplinas; os professores não separam as tarefas em listas de exercícios; e o aluno não recebe notas para cada exercício resolvido. Você é automotivado o suficiente para continuar trabalhando em prol de um objetivo sem ouvir palavras de incentivo no dia-a-dia?
    • Competitividade: Matricular-se em um programa de doutorado é escolher competir com os melhores pesquisadores da área. E ainda mais importante: quando você se formar, alguns dos seus colegas serão das pessoas mais brilhantes do mundo. Você e seu trabalho serão postos à prova, julgados e comparados aos deles. Quão disposto você está a competir nesse mundo?
    • Maturidade: Se comparado a um curso, que é minuciosamente planejado pelo professor, um trabalho de doutorado é bem menos estruturado. Você terá mais liberdade para traçar seus objetivos, decidir seus horários de trabalho e persuadir ideias que considere interessantes. Você está preparado para aceitar as responsabilidades que vêm junto com essas liberdades? O sucesso ou fracasso de um PhD depende disso.

Alguns Avisos

Muitos alunos optam por começar um doutorado pelos motivos errados. Esses alunos acabam percebendo, após algum tempo, que as exigências de um doutorado são demais para eles. Antes de ingressar no programa, os alunos devem entender que um doutorado...
  • Não traz prestígio: A maioria dos doutores se orgulha do esforço que fizeram e dos resultados alcançados. Entretanto, saiba que assim que você se formar todos os seus colegas de trabalho serão cientistas doutores. (Um professor do departamento costumava falar aos alunos de pós-graduação em um tom um tanto arrogante: "Eu não vejo por que você pensa que isso é uma grande realização — todos os meus amigos têm um PhD!")
  • Não garante respeito pelas suas opiniões: Muitos alunos acreditam que ter um PhD impõe respeito às pessoas. Você verá, na verdade, que pouquíssimas pessoas presumem que ter um PhD lhe torna uma autoridade ou um especialista na sua área. Isso é ainda mais verdade na comunidade científica: respeito deve ser conquistado.
  • Não é por si só um fim: Um doutorado lhe prepara para a pesquisa. Se tudo o que você quer é um diploma para pendurar na parede, existem maneiras bem mais fáceis de conseguir um. Quando você se formar, terá a chance de comparar as suas realizações profissionais às dos demais cientistas. E então vai perceber que o que conta no final são os trabalhos científicos que vêm depois do doutorado.
  • Não é garantia de trabalho: Quando a economia enfraquece, qualquer um pode ser impactado. Na prática, algumas empresas cortam investimentos em pesquisa bem antes de reduzir a produção, o que torna a carreira de um PhD extremamente vulnerável. Além disso, muitas empresas se negam a contratar um PhD para vagas de trabalho que não envolvam pesquisa. Como na maioria das profissões, ter um bom desempenho aumenta as chances de se manter empregado.
  • Não é uma maneira fácil de impressionar a família e os amigos: Sua mãe pode se orgulhar e se empolgar quando você se matricular em um programa de doutorado. Afinal, ela pensa que em breve poderá se gabar do filho "doutor". Todavia, o desejo de impressionar os outros não é motivação suficiente para o esforço que está por vir.
  • Não é um "teste de QI": Sinto muito, mas as coisas não são bem assim. Você está fadado ao fracasso se não se comprometer por completo. Você irá trabalhar por horas a fio, enfrentar muitas decepções, levar seu raciocínio ao limite, e aprender a organizar ideias meio a fatos que pareçam caóticos. A não ser que você realmente queira se tornar um pesquisador, as exigências do dia-a-dia irão lhe abater. Os padrões de qualidade são altos demais e o rigor exigido parece não ter explicação. Se você considerar um PhD um teste, você vai acabar desistindo.
  • Não é o único tema que você irá pesquisar: Muitos alunos erram em pensar que seu tema de doutorado será sua área de pesquisa para o resto da vida. Eles acham que um pesquisador trabalha em uma única área e investiga sempre o mesmo tema naquela área, usando as mesmas abordagens e ferramentas. Pesquisadores experientes sabem que novas questões surgem a todo momento, e aquelas que antes eram destaque se tornam cada vez menos interessantes com o passar do tempo e com novas descobertas. Os melhores pesquisadores costumam trocar de tema e área constantemente, no intuito de se renovarem e estimularem seu próprio raciocínio. Planeje-se para seguir adiante e prepare-se para as mudanças.
  • Não é mais fácil que ingressar na indústria: Você perceberá que o caminho em direção a um PhD é cada vez mais íngreme depois do início. Os professores impõem restrições à sua rotina de estudos e não permitem que alunos improdutivos permaneçam no programa.
  • Não é melhor que outras opções: Para muitos alunos, um doutorado é como uma maldição. Eles têm que escolher entre estarem entre os melhores mestres, ou serem pesquisadores medíocres. Às vezes, os professores orientam os alunos a decidirem se querem ser o "capitão do time B" ou um "jogador reserva" no time A. Cada um de nós deve escolher o que ser na vida, e qual profissão nos estimula mais. E os alunos devem levar suas habilidades a sério. Se você não conseguir decidir o que quer ser ou onde quer estar, peça ajuda aos professores.
  • Não é um jeito de ganhar mais dinheiro: Apesar de não termos estatísticas dos últimos anos, pós-graduandos costumam estimar o "lucro" dos seus estudos tendo como base (1) o salário inicial para vagas de mestre e doutor, (2) o tempo médio necessário para conseguir um PhD, (3) o preço de ações nos planos de opções oferecidos pelas empresas, e (4) a taxa de retorno sobre investimento. Sabe-se que em um período de pelo menos cinco anos o "lucro" é negativo. Podemos dizer que se escolhe a pesquisa por amor; um doutorado não é o caminho ideal para a riqueza.

A Boa Notícia

Apesar de tudo o que afirmamos, estamos todos muito felizes por termos um PhD e orgulhosos das nossas realizações. Se você for capaz e tiver interesse, uma carreira na pesquisa lhe trará recompensas bem maiores do que em qualquer outra profissão. Você conhecerá e terá a oportunidade de trabalhar com as mentes mais brilhantes do mundo; tentará compreender ideias além do seu alcance e assim ampliará sua capacidade intelectual; solucionará problemas nunca antes solucionados; explorará conceitos nunca antes explorados. Você vai descobrir princípios que mudarão profundamente a maneira como as pessoas lidam com computadores.

O Prazer pela Ciência

Um colega certa vez resumiu o sentimento que muitos pesquisadores têm sobre sua profissão. Quando questionado por que ele ficava tantas horas no laboratório, ele percebeu que as demais opções eram ir para casa, onde ele faria as mesmas coisas que outras milhões de pessoas estariam fazendo; ou trabalhar em seu laboratório, onde ele poderia realizar grandes descobertas científicas. Aquele sorriso em seu rosto concluiu a história: para ele, pesquisar era sua grande paixão.

Outras traduções

O original deste texto em inglês se encontra aqui:

Uma tradução deste texto para romeno está aqui:

Uma versão deste texto em polonês pode ser encontrada aqui: